Crianças reagirem com violência à abordagem policial e promoverem quebra-quebra em delegacias são apenas dois, entre outros inúmeros, exemplos da deficiência das estruturas sócio-educativas que trabalham “fora da realidade” brasileira e não levam em consideração as mudanças geradas pelas drogas, principalmente o crack, afirma Carmen Silveira de Oliveira, secretária nacional de Promoção dos Diretos da Criança e do Adolescentes.
“O sistema de atendimento existente trabalha de forma equivocada e ao invés de atrair as crianças para os abrigos, acabam por expulsá-las. Precisamos rever os nossos procedimentos, urgentemente”.
Segundo Carmen Silveira, quando se reclama que a criança não fica (nas instituições), é por causa da abordagem tradicional. Não fica quando se pega uma carrocinha, como se faz com cachorro, e sai recolhendo na rua. Algumas cidades que usam uma proposta mais convidativa com vans coloridas e malabaristas. “Se faz um convite para ir, não precisa ser na marra”.
A secretária adverte: “As minhas constatações são feitas com base em uma pesquisa censitária sobre crianças e adolescentes em situação de rua, encomendada pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, realizada no ano passado em 75 cidades brasileiras. O levantamento apontou que 24 mil crianças viviam nas ruas Brasil. Número possível de se reverter. Desse total, um terço tinha menos de 12 anos, 52% dormiam diariamente com a família e 18% estavam envolvidas com atividades ilícitas”.
Carmem Silveira salienta que “os números mostram que as crianças deixam suas casas por problemas familiares que englobam violência e abusos sexuais. Não se trata só de procurar essa família, mas de procurar uma nova dinâmica do lar para receber de volta essa criança, porque senão ela volta para a rua, já que a violência sexual e física continua acontecendo”.
A secretária alerta que o estudo revelou que nos abrigos as crianças reclamam de maus tratos, discriminação, excesso de rigidez e ócio, o que explicaria as repetidas fugas. “Você tem que criar uma rede de acolhimento que seja atrativa também, que tenha horários mais flexíveis, atividades mais atrativas para que a criança permaneça, porque a rua faz esta oferta. Existem instituições, às quais as crianças se referiram, que obrigam as crianças a tomar um banho frio de cara, a colocar um uniforme, de padronizar a conduta. Com esse tipo de criança, essa estratégia pode funcionar a médio ou longo prazo, mas não em um momento inicial”, ressalva.
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