terça-feira, 6 de novembro de 2012

Suprema importância

Por Arnaldo Jabor

Eu vi os dois primeiros dias do julgamento do mensalão. E, data venia ,
vi que há no Tribunal alguma coisa nascendo nas frestas dos rituais
solenes: os indícios de um fato histórico: o STF está mais ligado ao
mundo real, mais atento à opinião pública (por que não?).

Mas dava para ver um tenso alvoroço no plenário como na pré-estreia de
um filme inédito. Tudo parecia ainda um atemorizante sacrilégio, como se
todos estivessem cometendo um pecado - o delito de ousar cumprir a lei
julgando poderosos. Será que ousarão contrariar séculos de impunidade,
séculos de distância entre a Justiça e a sociedade?

Vi o "frisson" nervoso nos juízes que, depois de sete anos de lentidão,
têm de correr para cumprir os prazos impostos pelas chicanas e pelos
retardos que a gangue de mensaleiros conseguiu criar. Suprema ironia: no
país da justiça lenta, os ministros do Supremo são obrigados a correr,
andar logo, mandar brasa, falar rápido, pois o Peluso tem de votar e sai
em setembro. E só há julgamento porque o ministro Ayres de Brito se
empenhou pessoalmente em viabilizar prazos e datas. Se não, não haveria
nada.

O STF parecia um palco armado: os advogados dos réus numa tribuna, a
imprensa, convidados vip. Os advogados se movem em sincronia como
discretos bailarinos de ternos, com expressões céticas ou quase cínicas,
um tédio proposital nas caras, ostentando a tranquilidade profissional
de pistoleiros bem pagos antes de sacar a arma no duelo.

Ali estavam os protagonistas: Joaquim Barbosa transido de dores, ardendo
na pressa de emplacar esta revolução no STF, defrontando-se com a
programada lentidão de seu inimigo principal, Lewandowski, o homem que
levou seis meses para ler um processo escancarado havia sete anos e que
no início do julgamento deu-se ao capricho de ler seu voto por uma hora
e meia, conseguindo cumprir a estratégia de Thomaz Bastos e atrasar mais
um dia no processo.

E conseguiu irritar Joaquim Barbosa, que o chamou de "desleal".
Lewandowski retrucou, revelando a intenção que lhe vai na alma: "Pelo
que vejo, este julgamento vai ser turbulento." Quando foi cantar o
Gilmar Mendes, Lula disse que Lewandowski estava sob muita pressão e que
Joaquim Barbosa era um "complexado " - por quê? Porque é preto e está de
coluna doendo?

Ninguém, claro, assume o sutil racismo brasileiro, mas ninguém esquece
que ele é preto; nem ele. A verdade é que Lula nomeou-o achando que
seria uma "ação afirmativa" para seu governo e que Barbosa lhe seria
grato. Lula achava que podia influir no outro poder com esse gesto.
Dançou também no seu "alopramento".

No voto de Lewandowski vimos seu desejo de deixar patente na TV que é
resistente a pressões de nossa "rasteira" opinião pública. Quis também
exibir cultura jurídica cravejada de citações, criando um mecanismo de
defesa preventivo que transmuta sua fama de lento em "independência"
minuciosa. O julgamento vai oscilar entre a pressa e a lentidão. Pelos
freios e embreagens, a defesa dos réus se fará por meio de chicanas
retardadoras, por atrasos programados, por bloqueios e "questões de
ordem" com cascas de banana.

Aí, começou a leitura da acusação do Procurador Geral da República, que
ouvi com um arrepio de orgulho, como se estivesse na Inglaterra diante
de um sistema judiciário impecável. Seu relatório serviu como uma viagem
no tempo, rememorando a chanchada deprimente que foi o escândalo do
mensalão, sete anos atrás. Tudo reapareceu: cada malinha de dinheiro
vivo do Banco Rural, cada cheque administrativo, cada mentira e negação.
Será dificílimo contestar o relatório e o voto de Roberto Gurgel, pois
ele exibiu o óbvio, a autoevidência dos delitos. Daí, o show de chicanas
a que assistiremos.

Foi espantoso constatar também que os "malfeitos" dos mensaleiros foram
incrivelmente "aloprados", trabalho de ridículos amadores, deixando
pistas gritantes, dando bandeiras em todas as direções. Como puderam
errar tanto, ser tão primários?

Pensei e vi o óbvio - lembrei-me dos velhos comunistas que conheci tão
bem na minha revolução juvenil. O povão era nossa boa consciência, o
nosso salvo-conduto para a alma pacificada, sem culpas - o povão era
nossa salvação.

Nós éramos mais "puros", mais poéticos, mais heroicos. Ai, que saudades
do comunismo e, como dizia Beckett: "que saudades das velhas perguntas e
das velhas respostas..." A "verdade" era o simplismo; complexidade era
(e ainda é, para eles) coisa de "direita".

Mas, como era bom se sentir superior a um mundo povoado de "burgueses,
caretas e babacas", como eu classificava a Humanidade.

Daí, a explicação: para que se importar com os babacas? Podemos deixar
pistas à vontade porque, como disse o Lula, "sempre foi assim". Passaram
a "desapropriar" a grana da "direita" - ou seja, inventaram o roubo com
boa consciência, para "salvar" o povão com a grana do povão. Claro que
isso foi apenas o rationale para justificar a "mão grande", um
estandarte ideológico para legitimar a invasão da "porcada magra no
batatal".

Claro que pegaram altos trocos, porque ninguém é de ferro. Só não
contavam com as "cobras criadas" do Congresso, como o Jefferson, que
viram aqueles comunas folgados descumprindo promessas, tratando-os com
descaso de heróis contra "burgueses alienados e covardes".. Deu nas
denúncias operísticas do Jefferson, um dos recentes salvadores da
pátria. Por trás do mensalão há desprezo pela inteligência da sociedade.

Mas, muito mais grave do que a tradicional mãozinha nas cumbucas, mais
grave que punhados de dólares na cueca ou na bolsinha, muito mais grave
é a justificativa de que tudo não passou de "crime eleitoral", quando se
tratou de mais de R$ 100 milhões num roubo "revolucionário". Os
mensaleiros se absolvem e justificam porque teriam uma missão acima da
democracia "burguesa".

O STF não está julgando só roubalheiras, mas a tentativa de desmoralizar
a democracia para o benefício de um partido único. O PT quis usar o
governo que "tomaram" para mudar o Estado brasileiro. O STF está
julgando a preservação da República que lentamente se aperfeiçoa, e este
julgamento já é uma etapa de nossa evolução democrática.

Nas próximas eleições, haverá renovação... Façamos uma faxina. Nem
esses, nem indicados por esses. Não vote sem conhecer a história dos
candidatos. Não vote porque alguém pediu. Se não tiver candidato limpo,
trabalhe pela candidatura de alguém em quem você confie, ou
candidate-se.

Arnaldo Jabor é Jornalista e Cineasta. Artigo Originalmente publicado
nos jornais O Globo e Estadão em 7 de agosto de 2012.


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